sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

a ausência (para não dizer "de enlouquecer")


Muitas são as baladas, melodias e canções sobre a ausência apaixonada. Acontece-me, por vezes, suportar bem a ausência. Estou então normal: oriento a minha atitude pela de "toda gente" que sofre a partida de uma pessoa querida; obedeço com habilidade o treino que, desde muito cedo, me acostumou a estar seperado de minha mãe- o que, no entanto, não deixou de ser doloroso (para não dizer "de enlouquecer"). Comporto-me como um sujeito bem desmamado: sei alimentar-me - enquanto espero. Essa ausência bem suportada não é senão o esquecimento. Sou, por intermitências, infiel. É a condição algumas vezes morre por excesso, fadiga e tensão de memória (como werther).

Deste esquecimento acordo muito depressa. Prematuramente arrumo uma recordação, uma confusão. Uma palavra (clássica) emana do corpo, que exprime a emoção da ausência; suspirar: "suspirar depois da presença corporal", como se cada sopro incompleto, quisesse juntar-se ao outro: a imagem do abraço, como se funde as duas imagens numa só: na ausência apaixonada, sou, tristemente, uma imagem descolada, que seca, amarelece, se encarquilha.

Interessa-me sempre o ausente pelo discurso de sua ausência; situação estranha, na verdade; o outro está ausente como referente, presente como interlocutor; estou preso entre dois tempos: o tempo da referência e o tempo da elocução: partiste (por isso me lamento) estás aí (pois falo contigo).

Ma nipular a ausência é prolongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia friamente converter a ausência em morte.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

amar o amor


A necessidade deste livro está contida na seguinte consideração: o discurso amoroso é hoje em dia de extrema solidão. Este discurso é talvez falado por milhares de pessoas (quem o sabe?), mas não é defendido por ninguém. Está completamente banido das linguagens circundantes: ignorado, desacreditado, ou ridicularizado por elas, cortado não somente do poder, mas também dos seus mecanismos.

Dois poderosos mitos fizeram-nos acreditar que o amor podia, devia sublimar-se em criação estética: o mito socrático (amar serve para criar uma multidão de belos e magníficos discursos) e o mito romântico (produzirei uma obra imoral escrevendo a minha paixão. Roland Barthes- fragmentos de um discurso amoroso


"anulação: Sopro de linguagem durante o qual o sujeito acaba por anular o objeto amado sob o volume do próprio amor: por uma perversão especificamente apaixonada é o amor que o sujeito ama, não o objeto"

domingo, 14 de fevereiro de 2010


"encontro pela vida milhões de corpos; desses milhões posso desejar centenas; mas dessas centenas amo apenas um: você..a especialidade do meu desejo (...) foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras) para que eu encontrasse você, que entre mil, convém ao meu desejo(...) por que desejo você? Por que desejo tanto tempo?(...) espero uma chegada, uma volta, um sinal..pode ser fútil ou imensamente patético(...) uma mulher espera seu amante, a noite, numa floresta, quanto a mim só espero um telefonema, mas a angústia é a mesma. Tudo é solene, nao tenho noção das proporções (...) do sabor de uma outra contingência me deixo levar pelo medo de um perigo , de uma mágoa, de um abandono, de uma reviravolta(...) na sua ausÊncia sou, tristemente, uma imagem descolada, que seca, amarelece, encarrilha(...) uma mutilada que continua a sentir a dor de uma perna amputada(...) pouco a pouco me sufoco, meu ar se rarefaz(...)ciúme, angústias, posses, discursos, apetites, signos, o desejo amoroso queima por todo lado(...) nada mais doloroso que uma voz amada e cansada, extenuada, rarefeita, exangue, poder-se-ia-dizer voz do fim do mundo, que vai ser tragada muito longe das águas frias : ela está no ponto de desaparecer, como o ser amado está no ponto de morrer: o cansaço é o próprio infinito: o que acaba de não acabar(...) pois desde que te vejo , por um instante não me é mais possivel articular uma palavra: mas minha lingua se quebra e um fogo sutil desliza de repente sob minha pele: meus olhos não tem olhar, meu ouvidos zumbem, o suor escorre pelo meu corpo, um arrepio toma conta de mim, e por pouco me sinto morrer(...)quero constantemente arrancar de você a fórmula do meu sentimento, e da minha parte digo constantemente que o amo; nada fica para que seja sugerido, adivinhado, para que se saiba uma coisa é preciso que seja dito,; mas também desde que ela seja dita, ela é provisoriamente verdadeira"

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


eu deixarei que morra em mim

o desejo de amar os teus olhos que são doces

porque nada te poderei dar

senão a magoa de me veres eternamente exausto

No entanto a tua presença

é qualquer coisa como a luz e a vida

E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto

e em minha voz a tua voz

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010


"era aquilo. Sempre uma ida as coisas e sua sequente despedida. Na mesma hora que ganhava a vivência, nele ela se perdia. Sorte que vinha a outra, que vinha cicatrizar a alegria ou a abrir nova ferida, também logo substituida. E as pessoas nesse renovar-se envelhecendo. As pessoas n meio, com suas raízes sujas de terra, cavoucando seus mistérios, bem querendo-se, e juntas, acima das malqueridas ausências"

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

veja bem meu bem

Veja bem, meu bem
Sinto lhe informar
que arranjei alguem
pra me confortar.

Esse alguém está
quando vc sai.
E eu só posso crer, pois sem ter vc
nesses braços tais.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009


Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar

E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepio
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Rolando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
E à beira-mar


Lua, lua, lua, lua
Por um momento
Meu canto contigo compactua
E mesmo o vento canta-se
Compacto no tempo
Estanca
Branca, branca, branca, branca
A minha, nossa voz a tua sendo silêncio
Meu canto não tem nada a ver com a lua
Lua, lua, lua, lua