
Muitas são as baladas, melodias e canções sobre a ausência apaixonada. Acontece-me, por vezes, suportar bem a ausência. Estou então normal: oriento a minha atitude pela de "toda gente" que sofre a partida de uma pessoa querida; obedeço com habilidade o treino que, desde muito cedo, me acostumou a estar seperado de minha mãe- o que, no entanto, não deixou de ser doloroso (para não dizer "de enlouquecer"). Comporto-me como um sujeito bem desmamado: sei alimentar-me - enquanto espero. Essa ausência bem suportada não é senão o esquecimento. Sou, por intermitências, infiel. É a condição algumas vezes morre por excesso, fadiga e tensão de memória (como werther).
Deste esquecimento acordo muito depressa. Prematuramente arrumo uma recordação, uma confusão. Uma palavra (clássica) emana do corpo, que exprime a emoção da ausência; suspirar: "suspirar depois da presença corporal", como se cada sopro incompleto, quisesse juntar-se ao outro: a imagem do abraço, como se funde as duas imagens numa só: na ausência apaixonada, sou, tristemente, uma imagem descolada, que seca, amarelece, se encarquilha.
Interessa-me sempre o ausente pelo discurso de sua ausência; situação estranha, na verdade; o outro está ausente como referente, presente como interlocutor; estou preso entre dois tempos: o tempo da referência e o tempo da elocução: partiste (por isso me lamento) estás aí (pois falo contigo).
Ma nipular a ausência é prolongar esse momento, retardar tanto quanto possível o instante em que o outro poderia friamente converter a ausência em morte.